
23 de setembro, de 1997.
— Porque você está fazendo isso?
Senti meu rosto enrubescer, pelo tom das minhas palavras terem saído mais taciturnos do que eu esperava. Ele parou de beber por um momento e me encarou com aqueles olhos azuis que me encantavam desde a sétima série, se não me engano. Mas continuei.
— Você está parecendo um idiota bebendo desse jeito. Não que você só esteja sendo um idiota agora, mas você deveria parar.
— É mesmo, Amie?
Ele disse em um tom bastante irônico, olhando pro céu. Parecendo esperar alguma ajuda dos deuses.
— E porque eu deveria?
Disse, dando mais um gole naquela maldita vodka. O acompanhei bebendo e respondi:
— Porque você é meu melhor amigo desde quando tínhamos cinco anos. De verdade, Luke. Eu me importo, e tento, no mínimo te impedir de fazer merda por causa de uma… — dei uma pausa e cuspi a palavra — garota.
Acompanhei seu olhar ao céu, talvez esperando uma ajuda dos deuses também. As coisas haviam ficado tão estranhas entre a gente de uns tempos pra cá. Nossa amizade não era a mesma fazia tempos. Não tínhamos mais aquela liberdade de conversar sobre tudo, como melhores amigos normais. Alguma coisa havia mudado. E nós sabíamos exatamente o que era.
— Pela primeira vez não penso em uma garota semi-nua na minha cama, pra satisfazer meus desejos. Me imagino casando e tendo filhos com ela, sabe? Imagina que louco, todos os dias, quando eu chegar do trabalho, meus filhos sorrindo e dizendo que ficaram com saudades. E ela sendo a mãe de todos eles, claro. É tão complicado explicar… Simplesmente me imagino com ela, no inferno, em qualquer lugar, falando coisas clichês como: “eu preciso de você”, “eu te amo”, “eu iria até o fim do mundo por você”. Eu anseio por ela, o tempo todo. Mas ao mesmo tempo, eu tenho medo de perdê-la.
Disse e simplesmente sorriu, me encarando, deixando meu mundo mais calmo. Tudo ficava tão mais fácil quando ele sorria e me encarava. Eu sorri também, tentando entender como ele conseguia mexer tanto comigo.
— Como pode?
— Como pode o que, Amie? Você ouviu o que eu falei?
Eu não disse nada. Simplesmente encarei o oceano e ele deu mais um gole. Eu precisava me afastar de Luke. Nossa amizade é uma das poucas coisas que eu realmente prezo na vida. Mesmo com todo esse silêncio e falta do que dizer, nos sentíamos à vontade perto um do outro. Perto dele me sentia quase bem, como não me sentia fazia tempo. E é exatamente por isso que preciso ficar longe de Luke. Não podia ceder à tentação de me deixar levar por ele, por aqueles olhos que me hipnotizavam, pelo toque que me deixa eletrizada, por aquele silêncio que me cercava quando ele abria a boca pra falar. Não queria correr o risco de perder minha amizade com Luke. Não podia correr o risco de me aproximar demais. Esqueci de respirar no momento que nossos olhares se cruzaram.
— O que foi?
Perguntei, tentando disfarçar o jeito que aquele olhar mexia comigo.
— Você tem estado tão diferente… Bem, não consigo te entender. Nada em você tem feito sentido pra mim.
Ninguém nunca seria capaz de entender como seu olhar me faz derreter, o efeito calmante do seu sorriso, o toque que me faz formigar, a voz que silencia o mundo…
— Acho que essa bebida está mexendo um pouco com sua cabeça. Talvez seja hora de parar.
— Só estou… — deu uma pausa e então, continuou — tão cansando disso tudo, Amie.
— Disso tudo o quê?
Perguntei, mesmo sabendo a resposta. Ele estava me encarando com uma expressão nervosa no rosto, que estava me deixando confusa sobre o que fazer a seguir.
— Você pode me mostrar. — sussurrei.
Ele deu um risinho meio nervoso, estávamos entrando em um território ainda não desbravado da nossa amizade. Nossos lábios estavam tão perto agora. Ele não disse nada, mas eu podia sentir sua respiração bem próxima da minha. Nós estávamos cada vez mais perto. Abaixei as pálpebras e me aproximei lentamente, muito lentamente, me sentindo mais petrificada a cada instante. Fui esquecendo de respirar aos poucos. Inclinei a cabeça em direção à dele. E esperei. O beijo que eu tanto ansiava não veio. Abri os olhos, porque nada havia acontecido, exceto pelo farfalhar das ondas quebrando no mar. Eu estava sozinha. Nenhum sinal de Luke. Ele não estava mais lá. (s-uperar)

Realmente aprendi duas coisas: A primeira é que não há nada de errado em sacrificar o orgulho em nome de uma pessoa que te faz sorrir. Porque cá pra nós, hoje em dia não é fácil encontrar alguém que lhe faça dar um sorriso sincero. A segunda é que em um relacionamento você tem que aceitar a outra pessoa por tudo que ela é, não só pelas partes fáceis de aceitar. É burrice virar as costas pra uma coisa tão importante como o amor. (s-uperar)

E ele permanecia ali, me encarando com aqueles lindos olhos, as sombrancelhas franzidas sem entender a frieza das palavras que eu havia acabado de dizer.
— Não existe mais nada entre a gente, eu não quero ficar com você mais.
— E a única coisa que eu tô te pedindo é o porquê.
— Como se mudasse a realidade dos fatos ou fizesse alguma diferença.
— Você faz diferença.
E começou a palhaçada novamente. Minha voz havia sumido e minhas pernas tremiam de uma forma que eu tampouco conseguia me manter em pé. Mas eu precisava de foco pra terminar o que eu havia começado. Eu estava quase desistindo e deixando as coisas voltarem a ser como eram em alguns minutos atrás. Foi quando todo o sofrimento pelo qual passei nos últimos tempos, passou pela minha cabeça como um filme. E o motivo estava bem ali, há alguns centímetros.
— Olha… Deixe-me em paz e fique longe de mim a partir de agora, por favor. A única coisa que eu preciso é que as coisas voltem a ser como eram antes de você aparecer. — digo, me afastando.
E eu estava incrédula, não acreditando no que eu havia acabado de dizer. Não acreditando que eu consegui ser forte o suficiente para afastar de mim, o que eu mais desejava perto. E ele não se mexia. Ficou exatamente onde estava, encarando-me daquele jeito calmo e irritante de sempre. Exatamente como quem não se importa. Auto-confiante o bastante pra achar que poderia me enganar com suas mentiras, mais uma vez. Foi quando, interrompendo meus pensamentos, ele colocou suas mãos em meu rosto e disse o que eu quis escutar durante muito tempo. O único motivo capaz de me fazer ficar e ele sabia.
— Eu te amo e realmente quero ficar com você. — franzi os lábios e o fiquei encarando, sem saber exatamente o que dizer.
— Nós podemos ser felizes, basta deixarmos as coisas do jeito que estavam.
Dei o sorriso mais irônico que consegui naquele momento, engolindo em seco numa tentativa falha de segurar o choro.
— Eu e você sabemos das mentiras que acabou de dizer. Você mente tão bem, que por um tempo parecia tão… Tão… Verdade. Admiro essa sua habilidade de mentir, por um tempo até acreditei. Mas não vou continuar acreditando no que me diz, só porque é o que eu gostaria de ouvir.
Ele tentou dizer alguma coisa, que me recusei a ouvir. Tampouco deixei que ele tocasse em mim novamente, por maior que seja o efeito calmante das suas mãos. E por mais que eu queira me livrar desse vazio e acreditar em tudo que eu havia acabado de ouvir, dou meia volta e fujo em disparada, desejando nunca mais ter de vê-lo. (s-uperar)